Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Lusitânia é filha de Lisibea (Lisboa) e do Sol e, por ela se apaixonou um caçador grego de nome Portugal. Quando os amores parecem desencaminhar-se, acorrem às deusas (diesas) gregas, com cuja protecção se decide então o casamento.
A estreia em cena do 'Auto da Lusitânia' de Gil Vicente, foi há 477 anos. Os primeiros-ministros ainda não tinham sido inventados, as escutas-espião eram feitas pela fresta da porta ou com disfarce de reposteiro e eleições era palavrita não esgalhada ainda no meio político. Mandava no reino, o todo poderoso D. João III, o Piedoso.
O 'Auto da Lusitânia' é composto por duas partes -com ou sem intervalo comercial do tipo 'voltamos dentro de 30 segundos'- e na primeira, relata as atribulações de uma família judaica; na segunda, é tratado o casamento da princesa Lusitânia com o cavaleiro grego Portugal. Entre os convidados, há a registar a presença de dois diabitos: Belzebu & Dinato.
Típico de Gil Vicente é a inclusão na trama teatral de vários temas, personagens e diálogos algo disfarçados do assunto principal, mas que têm sempre um fio condutor comum e acabam por fazer passar a mensagem entre sorrisos, evitando o cutelo.
Nesta cena do casamento, duas personagens principais aparecem: Todo o Mundo [um rico mercador, arrogante, vaidoso e ganancioso como a maioria] e Ninguém [o homem pobre, com virtude e modéstia como ninguém existe]. Belzebu & Dinato escutam o diálogo entre os dois homens e comentam entre si, anotando e sublinhando as questões relativas à cobiça, à vaidade, mas também à virtude, verdade e honra dos homens.
Qualquer semelhança com a actualidade, quase cinco séculos depois, é mera coincidência. Como se segue:

Ninguém: Que andas tu aí buscando?

Todo o Mundo: Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando

por quão bom é porfiar.

Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?

Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.


Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.


Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.


Dinato: Que escreverei, companheiro?

Belzebu: Que Ninguém busca consciência.
e Todo o Mundo dinheiro.


Ninguém: E agora que buscas lá?

Todo o Mundo: Busco honra muito grande.

Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.


Belzebu: Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra Todo o Mundo
e Ninguém busca virtude.


Ninguém: Buscas outro mor bem qu'esse?

Todo o Mundo: Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.


Ninguém: E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.


Belzebu: Escreve mais.

Dinato: Que tens sabido?

Belzebu: Que quer em extremo grado
Todo o Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.


Ninguém: Buscas mais, amigo meu?

Todo o Mundo: Busco a vida a quem ma dê.

Ninguém: A vida não sei que é,
a morte conheço eu.


Belzebu: Escreve lá outra sorte.

Dinato: Que sorte?

Belzebu: Muito garrida:
Todo o Mundo busca a vida
e Ninguém conhece a morte.


Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
sem mo Ninguém estorvar.


Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.


Belzebu: Escreve com muito aviso.

Dinato: Que escreverei?

Belzebu: Escreve
que Todo o Mundo quer paraíso
e Ninguém paga o que deve.


Todo o Mundo: Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.


Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar.


Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.


Dinato: Quê?

Belzebu: Que Todo o Mundo é mentiroso,
E Ninguém diz a verdade.


Ninguém: Que mais buscas?

Todo o Mundo: Lisonjear.

Ninguém: Eu sou todo desengano.

Belzebu: Escreve, ande lá, mano.

Dinato: Que me mandas assentar?

Belzebu: Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo o Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.

Créditos: imagem Lima de Freitas

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publicado por LMB às 15:53 | link do post | favorito

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